COLABORAÇÃO E EDUCAÇÃO
Falar de práticas colaborativas em Educação requer uma reflexão bastante profunda, visto que não se trata apenas de analisar os processos de ensino e aprendizagem, e sim da reconfiguração desses processos e da relação entre seus agentes: educador e educando.
Antes mesmo de iniciar a discussão dos processos e das relações, já se pode observar a primeira grande mudança, que é a figura do educando como agente, e não simplesmente um mero receptor de conhecimento. A figura do educador também sofre um novo arranjo: em vez de detentor do conhecimento, ele passa a ser um mediador que contribuiu não mais apenas como fonte de informação, e sim gerenciador das informações trazidas por seus educandos.
Os desdobramentos dessas reconfigurações são apenas algumas das inúmeras constatações trazidas pelos textos encontrados sobre práticas colaborativas na web, voltados à Educação. Antes de dar início ao cerne da discussão com as novas práticas educacionais, faz-se necessário falar sobre as principais fontes de informação deste trabalho, que são os textos norteadores da discussão.
SOBRE OS TEXTOS E SEUS AUTORES
As referências sobre práticas colaborativas na web são inúmeras, com a facilidade de acesso ao material de estudo pela própria concepção do tema. Boa parte dos textos faz menção ao ensino à distância, até pelo crescimento nos últimos anos dessa modalidade nas universidades brasileiras, inclusive públicas, como as universidades federais do Rio de Janeiro (UFRJ), de São Carlos (UFSCar), a Universidade de Brasília (UnB), entre algumas das mais procuradas. Outros assuntos também discutidos são a utilização das novas ferramentas e plataformas de auxílio aos envolvidos no processo educacional, tais como Google Docs, Wikis, Web TVs, entre outras.
Por isso, os três textos escolhidos que servem como base para elaboração dessa parte do trabalho são os que discutem com maior abrangência os objetos, os contextos e o conceito de aprendizagem colaborativa. Eles são a síntese de uma pesquisa feita com uma série de textos, e trazem em sua discussão diversos autores de práticas colaborativas na web.
O primeiro selecionado é de Antonio Carlos dos Santos Souza, do Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia. Com o título Objetos de Aprendizagem Colaborativos, ele toca em assuntos fundamentais como os Repositórios de Objetos de Aprendizagem – ROA e o uso de software livre, chegando à discussão do “copyleft”, contrapondo-se ao copyright.
Já o segundo texto, Contextos de Aprendizagem e Mediação Colaborativa, é do autor Paulo Dias, do Instituto de Educação e Psicologia da Universidade do Minho, de Portugal. Ele discute as relações entre os membros das comunidades de aprendizagem como fator considerável no processo de construção do conhecimento. Ou seja, a importância das relações nas comunidades para a manutenção e crescimento do trabalho.
O terceiro e último texto a ser explorado é A Web 2.0, Educação a Distância e o Conceito de Aprendizagem Colaborativa na Formação de Professores, de Ana Beatriz Gomes Carvalho, da Universidade Federal da Paraíba. Ela traz à tona as mudanças ocorridas na internet, e como essas mudanças possibilitam a aprendizagem colaborativa, com “muitos emissores, muitos receptores e mais intercâmbios de cooperação”.
A seguir, serão abordados, portanto, os principais temas de discussões dos textos acima citados, como foco de todos os outros textos encontrados na web.
CRÍTICA AO MODELO ANTIGO (OU ATUAL?)
As principais críticas aos métodos hoje utilizados, segundo os autores de práticas colaborativas na web pesquisados, são de que as atividades de sala de aula, na maioria das vezes, dão enfoque na transmissão de conteúdos, sem valorizar situações reais e simulações. Souza pontua que o resultado disso é a construção de objetos digitais estáticos de transmissão, deixando de potencializar a produção do conhecimento.
Seria como falar de ensino à distância sem a participação efetiva dos alunos. Há escolas e faculdades que gravam aulas, muitas vezes até utilizando uma lousa para determinadas explicações, sem valorizar o potencial comunicativo da web. Souza explica que nesses casos, “a tecnologia apenas reflete de forma limitada a prática educacional, ao deixar de lado os tipos de objetos interativos de manipulação e uso do aprendido em situações abertas”.
Carvalho sintetiza que são modelos educativos que ainda não se adaptaram à sociedade informacional, privilegiando a memorização e avaliações quantitativas. “São propostas de educação baseadas no princípio fordista da massificação e reprodução da força de trabalho”. E os professores e alunos dessa realidade, apesar de bem intencionados no envolvimento com as novas práticas disponíveis da web, acabam utilizando-a de uma forma inapropriada, sem perceber no cotidiano os efeitos da nova era da sociedade, informacional.
A APRENDIZAGEM COLABORATIVA E SEU AMBIENTE
O texto que fala diretamente sobre a aprendizagem por meio das práticas colaborativas na web é o de Souza. Antes de dar pontualmente quais as fases desse processo, ele explica o que é o ROA – Repositório de Objetos de Aprendizagem e a filosofia do software livre. Segundo o texto, o fundamental na construção de conhecimento hoje é a maneira de organização dos conteúdos produzidos, seguindo regras de catalogação que permitam recuperá-los a qualquer momento e em diferentes situações.
Ele aponta as três partes que considera fundamentais na estruturação de um objeto de aprendizagem, que são os “objetivos”, o “conteúdo instrucional” e a “prática e feedback”. Veja a seguir o papel de cada uma das etapas:
- Objetivos: esta parte do objeto tem como intenção demonstrar ao aprendiz o que pode ser aprendido a partir do estudo desse objeto, além do pré-requisito para um bom aproveitamento do conteúdo.
- Conteúdo instrucional: parte que apresenta todo o material didático necessário para que no término o aluno possa atingir os objetivos definidos.
- Prática e feedback: uma das características importantes do paradigma objetos de aprendizagem é que a cada final de utilização julga-se necessário que o aprendiz verifique se o seu desempenho atingiu as expectativas.
Já Carvalho dá grande destaque à Web 2.0 para estruturar sua explanação. Ela considera a educação tão próxima e relacionada à nova era da web que nomeia esse novo período como o da “aprendizagem 2.0”. Mesmo considerando que já esteja bem estruturado do ponto de vista acadêmico, ainda se encontra em fase embrionária quanto à aplicação. Contudo, já é uma resposta à estrutura tradicional estática observada na internet, com poucos emissores e muitos receptores.
Apesar de estimularem a experimentação, reflexão e geração de conhecimentos individuais e coletivos, na construção de um espaço de aprendizagem coletiva, as ferramentas dessa nova fase da web acabam requerendo uma renovação tecnológica constante. Isto porque é preciso cada vez mais espaço e capacidade de processamento do conteúdo informativo. Dessa forma, as estratégias pedagógicas não podem estar atreladas apenas à aprendizagem, e sim a elementos que consolidem a formação de uma cultura digital, propiciando o uso pleno dos diversos dispositivos existentes na web, utilizando-a de fato a favor da educação.
Diferentemente de Souza e Carvalho, o texto de Dias parte para as questões mais psicológicas do uso das práticas colaborativas na web com finalidade de aprendizagem. O autor português fala de comunidades de aprendizagem e prática como a expressão de um grupo de pessoas que têm em comum alguns objetivos, valores, normas e intencionalidade social, história e identidade, construídos pelas interações entre seus membros. Para ele, o maior desafio da aprendizagem pela rede está na participação dos membros, não se limitando a apenas um transmissor das informações.
O autor chama esse processo colaborativo de educação como “cultura de participação”, com diálogos e construção de idéias e conhecimento do grupo. A comunidade não é só um espaço de confluência de interesses, mas também na partilha de experiências, resolução de problemas e construção de conhecimento. Ele vai além: tornar-se membro de uma comunidade significa partilhar das práticas culturais e acender às representações da comunidade.
Contudo, mais uma vez, os limites da comunidade são os limites participativos. Para tornarem-se bem sucedidos, é preciso que os processos de participação tenham objetivos e práticas orientadas para a partilha de experiências, métodos e estratégias, elementos organizadores do grupo. Uma tarefa que não é fácil, e que vai depender da figura de um mediador, o que veremos a seguir.
O PAPEL DO EDUCADOR E DO EDUCANDO
Dos três textos selecionados, o que mais discute sobre a mediação dentro de um contexto de práticas colaborativas é o de Dias. Uma das constatações que merecem destaque sobre o tema é que a mediação é responsável pela elaboração colaborativa de objetos culturais e materiais. Em outras palavras, é responsável pela manutenção do contexto da prática de participação.
O trabalho pontua que o contexto das aprendizagens é o conjunto de circunstâncias que são relevantes para o educando construir conhecimento. É um espaço de experiência educacional, “desenvolvendo-se assim de forma dinâmica e flexível em função do quadro de referência individual e do grupo, e das atividades realizadas ao longo do ciclo de aprendizagem”. Para Dias, é com a mediação tecnológica que se elabora a complexidade das redes de interação e a afirmação da natureza evolutiva da organização descentralizada e da expressão individual e comunitária.
Vale ressaltar este último ponto, que é a construção de uma expressão única da comunidade. Ela não é ditada ou imposta por alguém, mas emerge dos processos de interação do grupo, que adquire características de organização próprias no desenvolvimento das interações sociais e cognitivas. Não só o educando aprende com a participação, mas o educador-mediador também aprende, e eles constroem um discurso único, do grupo, de acordo com os objetivos, estratégias e relações previamente estabelecidas pelo mediador e posteriormente apreendidas pelo educando.
Retornando ao texto Souza, que cita diversos autores, até mesmo Dias, há uma ênfase maior à questão da autoria dos conteúdos produzidos nos ambientes colaborativos da web. Ora, se todos participam, todos são autores. Seria o que Pierre Levy chama de emergência de uma “inteligência coletiva”. A perspectiva de co-autoria é essencial para a construção colaborativa, mas vale lembrar que o trabalho individual é fundamental para a construção do conhecimento. Porém, há maior amplitude e dimensão quando acontece juntamente a um trabalho coletivo.
Antes de concluir sobre a autoria das produções em ambientes colaborativos na web, Souza explica que nesses ambientes prevalece o “copyleft”, em alusão ao copyright defendido hoje pelo o que ele chama de “maximalistas”: aqueles que consideram a informação um bem como uma propriedade igual a um material. A visão dos “minimalistas”, que defendem o “copyleft”, é de que a informação é um bem comum, que deve ser disponibilizada gratuitamente para uso dos que precisam dela.
Com isso, Souza reafirma que em um trabalho colaborativo, todos são co-autores, sejam eles alunos ou professores. Contudo, reconhecer a autoria de uma produção colaborativa é algo que ainda está em discussão, em aberto, e sem uma definição fechada.
PROBLEMAS NA APRENDIZAGEM
Apesar de falar das grandes vantagens e das formas com as quais se pode fazer a aprendizagem por meio de práticas colaborativas na web, os textos apontam poucos problemas nessa forma de a educação acontecer. O que mais procura enxergar os descaminhos da aprendizagem em ambiente virtual é Carvalho.
A autora reconhece o surgimento da cibercultura como processo natural do contato do internauta com elementos recentes da nossa cultura, que são os blogs, os sites, os chats, os downloads, entre outros, colocando essa cibercultura como uma dimensão cultural da inserção tecnológica no cotidiano das pessoas. Para a autora, isso possibilita uma interatividade baseada na ludicidade, ampliando as possibilidades nos níveis de aprendizagem.
Contudo, quando se fala em educação à distância, percebe-se que os alunos que procuram essa modalidade de ensino acreditam que ela seja mais fácil do que o ensino presencial regular. O maior problema é que a história desse estudante, que já passou pela educação básica, está calcada em um padrão fordista de produção, com ênfase nos processos mecânicos, repetição e padronização. Poucos são aqueles que tiveram algum incentivo para a construção do conhecimento crítico e autônomo. Com isso, ao se ver diante da responsabilidade de sua própria aprendizagem, administrando o tempo de estudo, a realização de atividades e o tom das relações com tutores-professores, além dos demais colegas, esse aluno fica confuso e precisa de uma adaptação.
Outra constatação é que em trabalhos colaborativos, a aprendizagem se dá por meio da participação, mas existe um fenômeno ainda difícil de lidar, que é o “silêncio virtual” por parte de alguns usuários. Apesar de isso ocorrer também em grupos não virtuais, esse problema é complexo, visto que em uma atividade presencial, por exemplo, o integrante pode ser coagido a se explicitar frente aos demais colegas, o que não acontece de forma mais efetiva em um trabalho colaborativo.
CONCLUSÃO
Como podemos observar, as discussões sobre as práticas colaborativas na web diante da Educação são muitas, evidenciando a necessidade de se encontrar maneiras que possibilitem o ensino à distância e outras formas de aprendizado. Espera-se que as universidades e demais instituições de ensino que estão aplicando essa modalidade de aprendizado estejam abertas à discussão, visto que é algo novo e certamente sofrerá alterações até se chegar em um modelo apropriado.
O que é certo, é que a potencialidade da web é infinitamente maior que outras ferramentas, como a televisão, simplesmente por proporcionar ao estudante um grau maior de interatividade, facilitando a reflexão sobre o tema dos conteúdos aprendidos. Apesar das vantagens, é preciso também identificar os problemas da Educação por meio das práticas colaborativas. Há ainda poucas referências, possivelmente por falta de conhecimento, devido à novidade do tema, mas que dificulta eliminar possíveis problemas existentes hoje e que surgirão.
Por fim, é fundamental constatar também que os textos se colocam frente a uma mudança não só tecnológica e de paradigmas educacionais, mas sobretudo de uma mudança do ser humano, da sua cultura. O comportamento mais ativo nos processos de construção de conhecimento faz de cada pessoa, cada internauta, uma fonte de informação, que tem opinião e que, com ela, colabora, possibilitando a emergência da cibercultura.
REFERÊNCIAS
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